| 
*
Desde bem pequeno, os Natais para mim foram um misto de alegria e tristeza. Quando ainda acreditava em Papai Noel (que foi até quando minha esperta irmã tirou a barba dele e revelou a cara do meu tio por baixo), eu não via quase nada fora da minha casa. A vida, para mim, se restringia aos limites estreitos da minha casa, do colégio em que estudava e da casa dos parentes. Mas com o tempo, passei a ver a rua. E foi através do vidro da enorme portaria do meu prédio da infância que vi uma imagem até hoje marcante pra mim.
Era noite de Natal, eu esperava meu pai chegar em casa do trabalho (provavelmente de uma festinha de confraternização, se bem eu o conheci, penso hoje, pois já era tarde e estava escuro) e chovia, apesar do tempo quente. As luzes eram refratadas e refletidas pelas gotas que caíam e nas poças d'água que espelhavam o outro lado da rua esparramado no chão.
Meu olhar inquietamente passeava pelos prédios vizinhos, pela gente que passava e pelos carros que, naquela época, eram raros. Mesmo assim, a rua tinha um movimento diferente, quase frenético, tinha uma pressa que denunciava não ser uma noite comum.
Foi quando eu vi um moleque do morro passar. A gente chamava os meninos pobres, freqüentemente negros ou mulatos, que perambulavam pelas ruas de moleques do morro. Eles moravam realmente nas favelas vizinhas e eram temidos por não cumprirem as mesmas regras que nós e por serem violentos, bons de briga. Além disso, dizia-se que roubavam. Eu nunca havia visto nada que justificasse a fama e até nutria uma inveja secreta pela liberdade que eles revelavam na intimidade que tinham com a rua, no jeito despreocupado com que vagavam vagabundamente pelo espaço que parecia lhes pertencer. Só muito tempo depois é que descobri que o espaço que tinham era quase nenhum: moravam em casebres apertados, onde toda a família se misturava, todos num mesmo cômodo freqüentemente... Os barracos quase encostavam uns nos outros, o chão era de terra, como das casas da roça, e tinham goteiras crônicas, pras quais já havia até vasilhas previamente escolhidas... Mas eu os invejava. Eles não iam à escola - e qual a criança que gosta da escola? - e não tinham mães pegando nos seus pés o dia todo (pelo menos era isso que eu achava).
E naquela noite passou aquele menino que até hoje está na minha cabeça: de short e sem camisa, descalço, chutava as poças não como diversão, nem por raiva. Era um sentimento que uma palavra somente talvez não comporte. Ele estava chateado, tinha tristeza, revolta - que é parente da raiva - talvez, mas o seu olhar - que eu só pude imaginar, pois os olhos miravam o chão todo o tempo - me sugeria algo como uma derrota para um adversário muito forte. Algo como a sensação que a gente teria se o Brasil fosse jogar contra o Haiti e perdesse... Aquele menino que, infelizmente se multiplicou e está em todos os cantos da cidade, do país e do mundo, ainda povoa a minha cabeça no dia a dia e, mais do que a cabeça, meu coração. E com ele, eu procuro ter um olhar generoso e compreensivo como tenho com meus filhos. Procuro respeitá-lo e amá-lo, lembrando que as crianças foram escolhidas por Jesus que as protegeu e elegeu donas do reino dos céus. Esse mesmo Jesus que, nascido pobre, teve sua vida ameaçada desde muito novinho pelos poderosos. Para mim, as crianças que estão nos nossos sinais são somente crianças. E a triste verdade é que elas poderiam ceder à tentação cotidiana de estar com armas nas mãos! Infelizmente! Mas felizmente, por outro lado, eles escolheram estar nos nossos sinais porque têm dignidade e não se submetem: tornam-se malabaristas, vendedores, pedintes, artistas em geral, mas pessoas admiráveis! Porque não desistem!
Hoje, dia de Natal, eu peço a Deus por elas. E peço a meus amigos que também peçam por elas. E que todos nós tenhamos um Natal muito feliz no aconchego dos nossos lares e um ano de 2008 cheio de paz, alegria, saúde, fartura, amor, gentileza, formosura e outras coisas boas que deviam dar em árvores das nossas ruas para que todos pudessem colher.
Por
* ,
|
|
|
| |
 |

Médicos Solidários vai ao programa do Serginho Grossman
Leia aqui >>>
|
|
 |
 |

|
Digite no campo abaixo o seu |
|
 |
|
|