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VAMOS CORRER!
Claudio Gil Soares de Araújo*
A vida do homem comum é cada vez mais corrida e agitada. Não nos sobra tempo para mais nada. Para que falar então em correr? Não seria melhor falar em descansar?
Com a recente decodificação do código genético do homem, ficou claro que os nossos gens são praticamente os mesmos há pelo menos 10 mil anos. As mesmas reações químicas, as mesmas enzimas, os mesmos hormônios, enfim, o mesmo metabolismo. Contudo, o estilo de vida certamente mudou muito nesse longo período de tempo e, mais especialmente, nas últimas décadas.
Vamos tentar imaginar como seria o padrão de atividade física do homem daquela época mais remota, em que não existiam meios de transporte motorizados nem caixinhas de controle remoto. Será que ele podia sobreviver de forma sedentária ou até mesmo, dando umas caminhadas três vezes por semana? Como ele conseguiria comida ou fugir dos predadores? Mesmo sem ter vivido naquele tempo, não é difícil imaginarmos que a sobrevivência estaria atrelada a uma atividade física intensa mantida por um grande número de horas do dia. Não restam dúvidas, estamos usando a nossa “máquina” fora das especificações do manual de operações. Tanto o sedentarismo como a atividade física esporádica, tipo a peladinha de futebol dos sábados, não são rotinas apropriadas de acordo com o manual.
Na prática médica, uma das queixas ambulatoriais mais freqüentes e que, muitas vezes, sinaliza uma doença grave é a intolerância ao exercício. Comumente, ela aparece como uma queixa do paciente da presença de um cansaço incomum para a realização de suas atividades habituais. Ela se diferencia daquela perda lenta e progressiva de capacidade física que pode acompanhar o processo de envelhecimento. Quando o corpo não consegue se manter ativo é muito provável que ele se encontre enfermo. Por outro lado, o reverso é também verdadeiro. É necessário fazer exercício físico para que o corpo se mantenha saudável.
Nesse sentido, é preocupante observar que a grande maioria dos médicos desconhece os aspectos da fisiologia e da medicina do exercício e do esporte. Questões elementares tais como a maneira correta de respirar durante o exercício, identificar o exercício mais apropriado para um determinado efeito e a posologia básica do exercício para jovens, adultos e idosos tornam-se complexas para até mesmo aqueles com boa formação e vivência clínica.
Sabendo dos potentes efeitos benéficos do exercício físico, especialmente se regular e intenso, sobre a saúde física e mental do indivíduo e o impacto favorável da adoção de um estilo de vida mais ativo sobre os índices de morbidade e mortalidade das principais doenças crônico-degenerativas é, no mínimo, um contra-senso, que não exista uma ação médica efetiva nessa área. Isso é especialmente verdadeiro em um país como o nosso, no qual os recursos financeiros para a área da saúde são tão limitados. É necessário portanto obter um envolvimento dos médicos para que discutam e estimulem os seus pacientes a se tornarem mais fisicamente ativos. Apenas para citar uma experiência recente, pesquisadores neozelandeses (Elley et al., BMJ 12 de abril de 2003) observaram que médicos generalistas eram capazes de conseguir, somente com um aconselhamento durante a consulta, que 10% dos indivíduos passassem a realizar mais de 2,5 horas semanais de exercício ao longo de um ano, um número por si só, capaz de provocar enormes benefícios econômicos para o sistema de saúde.
Posto isso, cabe reiterar o título, porém agora em um sentido duplo. Vamos correr para nos mantermos saudáveis e vamos correr para incluir, uma simples pergunta sobre a atividade física dos nossos pacientes, se possível aconselhando-os a aumentar a sua frequência e intensidade para aqueles que já a fazem e estimulando a quebra de sedentarismo para aqueles que nada fazem. É simples, é factível, gera resultados positivos com efeitos colaterais mínimos ou ausentes e não custa dinheiro. Uma abordagem simples e de acordo com o manual de operações da máquina. Isso é uma medicina sem fronteiras!
Por
* Claudio Gil Soares de Araújo, médico solidário, diretor-médico da Clínica de Medicina do Exercício – CLINIMEX, professor do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da UGF e coordenador do Curso de Especialização em Medicina do Exercício e do Esporte da UNESA
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